top of page
Área VIP

Mais do que
leitores,
parte da história.


Às vezes, é em lugares conhecidos que a vida nos surpreende de novas formas.





“Alguns reencontros chegam devagar, mas mudam tudo ao redor.”



Área VIP > Sala de Leitura > Capítulo 2 - Entre o Mar e o Reencontro
CAPÍTULO 2
Entre o Mar
e o Reencontro

Na manhã seguinte, o cheiro de maresia estava mais forte do que o de café. Mel desceu a rua da marina carregando uma sacola térmica com seis potes de sorbet de limão. Tia Léa tinha prometido a Seu Raul uma entrega para o almoço dos pescadores, e Mel se oferecera rápido demais para levar. Só percebeu o motivo quando viu Theo ajoelhado no convés do Esperança, tentando prender uma pequena câmera num suporte improvisado.
— Você está filmando o motor? — perguntou.
Theo levantou o rosto.
— Estou tentando descobrir por que ele faz um som diferente quando meu avô mente que está tudo bem.
Do outro lado do barco, Seu Raul resmungou:
— O motor está ótimo.
Theo apontou discretamente para ele.
— Viu?
Mel sorriu antes de conseguir evitar. O Esperança era um barco de madeira branca com detalhes azuis, pequeno o bastante para parecer íntimo e antigo o bastante para carregar histórias nas marcas do casco. Seu Raul o usava havia mais de vinte anos para pesca e passeios curtos pela costa. Mel tinha passado metade da infância ali, geralmente sentada na proa enquanto Theo insistia em inventar nomes para ilhas que já tinham nome. Naquela época, parecia impossível imaginar que um dia eles poderiam se tornar quase desconhecidos.
— Trouxe o sorbet — disse ela.
— Você salvou meu almoço — respondeu Seu Raul.
— E, já que está aqui, pode salvar minha manhã também.
Mel conhecia aquele tom.
— O que você quer?
— Uma mão extra. Vou até a enseada buscar duas caixas de rede. É rápido.
Ela olhou para Theo.
— Ele tem duas mãos.
— Uma está segurando câmera e a outra desaprendeu a dar nó.
— Calúnia — disse Theo.
Seu Raul estendeu um colete para Mel.
— Uma hora.
Mel deveria dizer não. Tinha turno na Bella Vita ao meio-dia, ainda precisava conferir uma entrega e, principalmente, já havia decidido que passar tempo demais perto de Theo seria uma péssima ideia. Olhou para o relógio.
— Quarenta minutos.
— Fechado.
Theo inclinou a cabeça.
— Você negocia até passeio de barco?
— Isso não é passeio.
— Claro que não.
O jeito como ele sorriu fez parecer exatamente isso. Mel colocou o colete. O motor do Esperança começou a roncar e, pouco a pouco, Santa Marina se afastou em tons de branco, verde e telha queimada.
Da água, a cidade sempre parecia menor. Mais simples. Quase fácil. Mel se sentou no banco lateral. Theo ficou do outro lado, filmando o contorno da costa.
O vento empurrava o cabelo dele para trás e fazia a camiseta bater contra o corpo. Não havia nada extraordinário na cena.
Talvez por isso ela parecesse tão perigosa. Era fácil esquecer os dezoito meses quando Theo estava ali, no mesmo barco de antes, segurando uma câmera e discutindo com o avô sobre enquadramento. Como se algumas coisas simplesmente tivessem esperado.
— Então — Mel disse.
— Pessoas que escolhem ficar.
Theo abaixou a câmera.
— Esse é o tema provisório.
— E se você descobrir que ninguém escolheu? Que só aconteceu?
— Também serve.
— Belo otimismo.
— Documentário não precisa provar uma tese. Pode mudar de ideia no caminho.
Ela olhou para o mar.
— Luxo.
Theo franziu a testa.
— O quê?
— Poder mudar de ideia sem parecer que você falhou.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você está falando da faculdade?
— Não.
— Então está falando da faculdade.
Mel virou para ele.
— Você ainda faz isso.
— Isso o quê?
— Acha que entende o que eu não disse.
Theo apoiou os braços nos joelhos.
— Eu conheço você.
— Conhecia.
A palavra saiu mais dura do que ela pretendia. Por um instante, achou que ele fosse brincar ou rebater. Theo apenas assentiu.
— Justo.
A facilidade com que aceitou deixou Mel sem resposta. Seu Raul, ao leme, demonstrava uma concentração impressionante no horizonte para alguém que certamente escutava cada palavra. Mel voltou a olhar para a costa.
— Por que esse tema?
— Qual?
— Pessoas que ficam.
Theo demorou um pouco.
— Porque todo mundo fala de quem vai embora.
— E?
— Quase ninguém pergunta por que alguém fica.
— Talvez porque seja menos interessante.
— Ou porque a gente acha que ficar não exige coragem.
Mel olhou para ele. Theo já tinha levantado a câmera outra vez.
— Isso foi ensaiado?
— Ficou bom?
— Irritantemente.
— Então foi.
Ela balançou a cabeça, mas sorriu. Alguns minutos depois, chegaram a uma pequena enseada protegida por pedras. Theo pulou primeiro e amarrou o barco ao píer curto. Mel ajudou Seu Raul a puxar uma caixa de rede guardada sob um toldo. A segunda estava presa atrás de um banco de madeira que parecia não ser movido havia anos.
— Theo — chamou Raul.
— Em vez de filmar a decadência da minha coluna, venha ajudar.
Theo desligou a câmera.
— Isso daria um ótimo curta.
— E um ótimo motivo para eu te deixar voltar nadando.
Mel riu. Os três empurraram o banco. Assim que ele saiu do lugar, uma lata pequena e enferrujada caiu no chão. Fez um barulho metálico. Mel se abaixou primeiro.
— Isso é seu?
Seu Raul olhou rapidamente.
— Se estava no Esperança, provavelmente é de vocês dois.
Theo se aproximou. Na tampa, escrito com caneta permanente já quase apagada, havia duas letras.
M + T
Mel ficou imóvel.
— Não.
Theo arregalou os olhos.
— Não acredito.
— Não abre.
Ele já estava abrindo.
— Theo!
— Agora é tarde.
Dentro havia papéis dobrados, dois chaveiros quebrados, algumas conchas, uma pulseira feita de linha azul e um bilhete plastificado com fita adesiva. Theo pegou a pulseira.
— Eu fiz isso.
— Ficou horrível.
— Você usou por meses.
— Eu tinha treze anos. Não tinha critérios.
— Continua cruel.
Mel puxou o bilhete. No topo, escrito com a letra torta de uma menina de treze anos, estava:
COISAS PARA FAZER ANTES DOS DEZOITO
Ela soltou uma risada incrédula.
— Eu tinha esquecido completamente disso.
— Eu não.
Mel olhou para ele.
Theo corrigiu:
— Quer dizer... eu lembrava que existia. Não lembrava onde estava.
— Sei.
Ele se inclinou para ler por cima do ombro dela. Abaixo do título havia dez itens.
1. Dormir na praia sem ser pego pelos adultos.
2. Comer quatro sabores de sorvete no mesmo dia.
3. Ver o nascer do sol na Ponta do Farol.
4. Pegar chuva de propósito.
5. Aprender a dirigir o Esperança.
6. Ir a uma festa em outra cidade.
7. Ficar vinte e quatro horas sem celular.
8. Contar um segredo que dê medo de contar.
9. Ir embora sem esquecer daqui.
10. Fazer alguma coisa que nenhum dos dois consiga explicar depois.
Theo apontou para o último.
— Item dez é muito específico e completamente inútil.
— Você escreveu isso.
— Como sabe?
— Eu tinha treze anos e já sabia usar pontuação.
— Esse argumento vai me perseguir para sempre?
— Provavelmente.
Mel passou o polegar pelo papel. Alguns itens tinham pequenas marcas de caneta ao lado. Outros continuavam vazios. De repente, aquilo deixou de ser apenas engraçado. Era estranho encontrar uma versão tão antiga deles dois guardada dentro de uma lata. Dois adolescentes convencidos de que dezoito anos era uma idade distante demais para ser real.
— A gente nunca terminou — disse ela.
— A gente também não tinha dezoito.
— Agora tem.
— Eu tenho dezenove.
— Tecnicamente, você perdeu o prazo.
Theo pegou a lista das mãos dela e tornou a ler.
— Você ainda não.
O sorriso de Mel diminuiu.
— Faltam setenta e um dias para eu ir embora.
Theo ergueu os olhos.
— Ontem eram setenta e dois.
— Parabéns pela matemática.
— Dá tempo.
— Para quê?
Ele levantou o papel.
— Terminar.
Mel riu.
— Você voltou há dois dias e quer retomar uma lista que a gente fez aos treze.
— Não estou dizendo que é uma boa ideia.
— Isso não melhora sua proposta.
— O item dez praticamente exige uma ideia ruim.
Ela tentou manter a expressão séria. Falhou. Theo sorriu, e por alguns segundos foi assustadoramente fácil lembrar de como era antes. Seu Raul passou pelos dois carregando a segunda caixa.
— Se forem discutir adolescência, façam isso ajudando.
Theo pegou uma das redes.
— O senhor sabia que isso estava aqui?
— Tenho idade suficiente para saber que algumas coisas devem ser encontradas na hora certa.
Mel estreitou os olhos.
— Isso parece uma resposta de quem sabia.
— Parece mesmo.
E ele continuou andando.
— Seu avô ficou misterioso — murmurou Mel.
— Ele sempre foi. Só envelheceu e percebeu que agora pode chamar isso de sabedoria.
No caminho de volta, a lata ficou no colo de Mel. Theo posicionou a câmera sobre o banco e começou a entrevistar o avô. Perguntou há quanto tempo ele tinha o barco, qual fora a viagem mais longa, por que nunca vendera o Esperança e se alguma vez tinha pensado em morar em outro lugar. Seu Raul respondeu tudo sem olhar diretamente para a lente.
— E nunca quis ir embora? — Theo perguntou.
Raul ficou alguns segundos olhando o horizonte.
— Querer, todo mundo quer em algum momento.
— Então por que ficou?
— Porque fiquei.
Theo sorriu.
— Péssima resposta para um documentário.
— Faça uma pergunta melhor.
Mel abafou uma risada. Theo tentou novamente.
— O senhor acha que as pessoas ficam porque amam um lugar?
Seu Raul pensou.
— Às vezes.
— E nas outras vezes?
O barco avançava devagar sobre a água. Raul apoiou uma mão no leme.
— Lugar nenhum é tão bonito quando você é obrigado a ficar nele.
Mel ergueu o rosto. Theo também. Seu Raul continuou:
— A beleza precisa ter porta de saída.
Theo permaneceu em silêncio por um instante.
— Isso entra no filme.
— Não entra, não. Estou despenteado.
— A câmera está nas minhas mãos.
— Justamente. Você ainda pode apagar.
Mel sorriu, mas a frase ficou com ela. A beleza precisa ter porta de saída. Talvez fosse exatamente aquilo que ninguém em Santa Marina conseguia entender quando ela dizia que queria estudar fora. Como se desejar outro lugar significasse rejeitar aquele. Como se amar a cidade exigisse permanecer nela para sempre. Mas Mel amava Santa Marina.
Amava as manhãs lentas, o cheiro de mar, a praça, a Bella Vita, as vozes que ela reconhecia antes de ver os rostos. E justamente por amar tudo aquilo queria saber quem seria longe dali. Quando atracaram, Theo segurou a lata antes que Mel descesse.
— Posso ficar com isso?
Ela puxou de volta.
— Nem pensar.
— Metade é minha.
— A lata estava no barco do seu avô. Juridicamente, é dele.
Seu Raul passou entre os dois.
— Juridicamente, quero distância dessa conversa.
Theo riu.
— Então fazemos guarda compartilhada.
Mel levantou uma sobrancelha.
— Como funciona?
— Um item de cada vez. Quem escolher leva a lista.
— Você inventou essa regra agora.
— Toda tradição começa em algum momento.
— Isso não é tradição.
— Ainda.
Mel olhou novamente para o papel. O mais sensato seria guardar a lata, voltar para a sorveteria e esquecer aquela ideia. Ela já tinha uma contagem regressiva. Não precisava de uma segunda lista para complicar os dias. Em vez disso, retirou a pulseira azul da lata e entregou a Theo.
— Você começa.
Ele olhou para a pulseira e depois para ela. Havia algo diferente em sua expressão. Satisfação, talvez. Ou surpresa por ela ter aceitado tão facilmente. Theo voltou para a lista.
— Ponta do Farol.
— O quê?
— Número três. Nascer do sol.
— Amanhã eu abro a sorveteria.
— Depois de amanhã.
— Também.
— Você abre todos os dias?
— Quase.
Ele pensou por um instante.
— Então antes de abrir.
Mel encarou o céu, que já estava claro demais para qualquer conversa sobre nascer do sol.
— Você sabe que isso significa acordar às quatro e meia da manhã.
— Eu moro com um pescador.
— Eu trabalho com sorvete. Somos espécies diferentes.
Theo estendeu a mão.
— Depois de amanhã. Quatro e meia.
Mel olhou para a mão dele. A lista parecia apenas um pedaço antigo de papel. Um jogo adolescente. Dez coisas que eles tinham escrito quando ainda não sabiam o que significava ir embora, voltar ou sentir falta de alguém. Talvez fosse justamente isso que a tornava perigosa. Ela apertou a mão dele.
— Quatro e quarenta e cinco.
— Quatro e meia.
— Quatro e quarenta.
— Fechado.
Ele demorou um segundo a mais do que precisava para soltar a mão dela. Mel fingiu não perceber. Theo também. Quando ela voltou para a Bella Vita, o movimento do almoço já tinha começado. Tia Léa não fez perguntas. O que, vindo dela, era muito mais suspeito do que qualquer interrogatório. Mel trabalhou até o fim da tarde tentando não pensar na lista dentro da bolsa. Não funcionou.
Sempre que havia alguns segundos de silêncio, lembrava do número dez. Ou da frase de Seu Raul. Ou da mão de Theo segurando a dela um pouco mais do que o necessário. Mas era o item três que parecia insistir mais.
Ver o nascer do sol na Ponta do Farol. No fim do expediente, Mel abriu o caderno azul.
Riscou 71 e escreveu 70.
Setenta dias até Santos.
Setenta dias até a faculdade.
Setenta dias até deixar para trás a cidade que conhecia tão bem que, às vezes, parecia conhecer também todas as versões possíveis de si mesma.
Logo abaixo, escreveu:
3. Ponta do Farol — depois de amanhã, 4h40.
Ficou olhando para a frase. Era só um nascer do sol. Só um item de uma lista feita aos treze anos. Só Theo entrando novamente em espaços que ela tinha levado dezoito meses para aprender a deixar vazios. Mel fechou o caderno. O celular vibrou sobre o balcão.
Theo.
Ela hesitou antes de abrir. Sobre a Ponta do Farol... preciso te contar uma coisa. Mel franziu a testa. Os três pontinhos apareceram na tela.
Sumiram.
Voltaram.
Então chegou outra mensagem. Na verdade, eu devia ter te contado há um ano e meio. O coração dela bateu mais forte.
Mel começou a escrever o quê?, mas apagou antes de enviar. A terceira mensagem chegou primeiro.
Você nunca soube por que eu não fui à praça naquela última noite. Mel parou. Durante dezoito meses, ela tinha acreditado que sabia. Theo simplesmente escolhera não aparecer. Era a única versão que fazia sentido. Ou, pelo menos, tinha sido até aquele momento. Outra mensagem surgiu na tela.
Eu te conto quando o sol nascer. Mas tem uma coisa que você precisa saber antes. Mel esperou. Os três pontinhos apareceram.
Sumiram.
Voltaram.
Ela prendeu a respiração. Então uma última mensagem chegou. Naquela noite, eu não fui à praça porque eu...
bottom of page


