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Área VIP > Sala de Leitura > Capítulo 1 - A Sorveteria da Vila
CAPÍTULO 1
A Sorveteria da Vila

Às sete da manhã, Santa Marina ainda parecia pertencer aos barcos de pesca, aos cachorros que dormiam nas calçadas e às pessoas que sabiam abrir portas sem fazer barulho. Mel gostava daquele horário porque a cidade não tinha começado a pedir nada dela.
Ela ergueu a porta de metal da Bella Vita e respirou o cheiro que escapou do salão: waffle recém-assado, madeira encerada e o perfume doce da calda de graviola que tia Léa deixara pronta na noite anterior. Em fevereiro, o calor chegava cedo, mas a sombra da rua estreita ainda segurava um resto de madrugada. Mel acendeu as luzes, abriu as duas janelas voltadas para a praça e conferiu o quadro dos sabores. Graviola. Jaca. Chocolate amargo. Coco queimado. Manga com gengibre. A lista mudava quase todos os dias, porque Léa dizia que sorveteria boa precisava ter pelo menos um sabor que fizesse alguém perguntar “isso combina?”.
Mel achava que a vida dela tinha se resumido à mesma pergunta.
No balcão, ao lado da caixa registradora, estava o caderno azul onde ela havia escrito, em letras pequenas: 72 dias.
Setenta e dois dias até deixar Santa Marina. Setenta e dois dias até Santos, a universidade, Arquitetura e Urbanismo, uma quitinete dividida com uma garota que ela só conhecia por chamadas de vídeo e uma rotina em que ninguém saberia que ela sempre pedia limão sem gelo ou que tinha medo de dormir com a janela completamente fechada.
Na cidade não havia faculdade. Para qualquer curso além do ensino médio, era preciso atravessar quilômetros de estrada e aceitar que crescer significava, em algum momento, arrumar uma mala. Mel tinha planejado aquela mala por quase dois anos. Mesmo assim, quando olhava o número no caderno, o peito apertava como se o plano tivesse sido feito por outra pessoa.
— Você vai furar essa página de tanto olhar — disse tia Léa, surgindo da cozinha com o cabelo preso por um lápis.
— Estou conferindo.
— O quê? Se os dias continuam passando?
Mel fechou o caderno.
— Exatamente.
Léa riu e colocou sobre o balcão uma bandeja de casquinhas. Aos quarenta e poucos anos, ela administrava a Bella Vita com a energia de quem desconfiava profundamente de qualquer minuto desperdiçado. Tinha comprado o ponto quando Mel ainda era criança e transformado uma antiga loja de lembranças na sorveteria mais fotografada da praça.
— Sua mãe mandou mensagem — disse. — Quer saber se você já confirmou a matrícula.
— Confirmei ontem.
— E contou para ela?
— Tecnicamente, não.
— Mel.
— Eu vou contar.
Léa apoiou as mãos no balcão.
— Você pode estar feliz e assustada ao mesmo tempo, sabia?
— Eu sei.
— Pode querer ir e ainda sentir falta antes de partir.
— Eu sei também.
— Ótimo. Então pare de agir como se uma emoção anulasse a outra.
Mel abriu a boca para responder, mas o sino da porta tocou. O primeiro cliente do dia entrou com uma mochila preta no ombro, uma câmera pendurada no peito e o cabelo mais comprido do que ela lembrava.
Por um segundo, Mel teve a sensação absurda de que Santa Marina havia puxado uma lembrança antiga para dentro da sorveteria.
Theo Nogueira parou diante do balcão.
— Vocês ainda fazem graviola? — perguntou.
Havia dezoito meses que Mel não o via. Não que estivesse contando. Ela só sabia porque Theo tinha ido embora numa terça-feira de agosto, dois dias depois da festa do padroeiro, e porque naquela época eles ainda tinham o hábito idiota de marcar datas em tudo. Primeiro mergulho sem boia. Primeiro filme escondido depois da meia-noite. Primeiro dia em que conseguiram subir até a Ponta do Farol sem reclamar do calor.
Nunca houve um “primeiro beijo”. O espaço tinha ficado em branco.
— Tem — respondeu Mel, mais seca do que pretendia.
Theo sorriu de um jeito pequeno, sem a confiança fácil que ela lembrava.
— Então uma bola.
— Só uma?
— Eu perdi o condicionamento para férias.
— Você sempre odiou academia.
— Não falei de academia.
Léa olhou de um para o outro com interesse indecente.
— Theo! — exclamou, contornando o balcão para abraçá-lo. — Quando chegou?
— Ontem à noite.
— Seu avô não contou nada.
— Foi meio de última hora.
Mel pegou a colher de sorvete e mergulhou na graviola com força demais.
— Quanto tempo fica? — perguntou Léa.
— Até abril, provavelmente.
A colher parou no ar.
Abril.
Theo percebeu. Os olhos dele foram até o caderno azul, aberto de novo sobre o balcão. A página mostrava o número 72.
— O que é isso? — perguntou.
Mel colocou a bola de sorvete na casquinha.
— Nada.
— Parece uma contagem regressiva.
— Porque é.
Léa, traidora, respondeu antes dela:
— Dias até a Mel ir para Santos.
Theo não reagiu de imediato. Pegou a casquinha que Mel estendeu.
— Faculdade?
— Arquitetura.
— Você conseguiu.
Não havia surpresa na voz dele. Só uma certeza tranquila que a irritou um pouco.
— Consegui.
— Parabéns.
— Obrigada.
Silêncio.
Léa decidiu que era um bom momento para desaparecer na cozinha.
Theo pagou e se encostou no balcão, como se não tivesse pressa.
— Você ainda desenha fachadas? — perguntou.
— Às vezes.
— Mentira. Você desenhava até embalagem de biscoito quando estava entediada.
— As pessoas mudam.
Ele baixou os olhos para a casquinha.
— Eu sei.
A resposta veio simples, mas ficou entre eles mais tempo do que deveria. Mel se ocupou alinhando potes que já estavam alinhados. Quando Theo tinha ido embora, não houve briga. Também não houve despedida. A mãe dele decidira mudar para São Paulo depois da separação, e tudo aconteceu rápido demais: caixas, documentos, uma passagem comprada, mensagens cada vez mais curtas. Na última noite, Theo prometera passar na praça. Não passou.
No dia seguinte, mandou apenas:
— Desculpa. Não consegui.
Mel respondeu:
— Tudo bem.
Não estava.
— Meu avô precisa de ajuda com o barco — ele disse. — E eu tenho um projeto da faculdade para fazer. Um mini-documentário.
— Sobre barcos?
— Sobre pessoas que escolhem ficar.
Mel soltou uma risada curta.
— Corajoso gravar isso numa cidade onde todo mundo pergunta quando você vai embora.
— Talvez seja justamente por isso.
Ela finalmente o encarou.
Theo tinha mudado menos do que parecia à primeira vista. Ainda franzia a testa quando pensava antes de responder. Ainda usava o relógio no pulso direito. Ainda tinha aquela forma irritante de prestar atenção como se o resto do ambiente perdesse volume.
— Você escolheu ficar? — Mel perguntou.
— Eu voltei.
— Não é a mesma coisa.
— Não. — Ele concordou. — Não é.
O sino tocou outra vez. Duas turistas entraram falando sobre o calor e pedindo recomendações.
Theo deu um passo para o lado.
— Eu não quero atrapalhar.
— Já atrapalhou.
Ele riu.
— Isso parece mais com você.
Mel sentiu a vontade infantil de sorrir e odiou ter sentido.
Antes de sair, Theo apontou para o caderno.
— Setenta e dois dias é bastante tempo.
— Para quê?
Ele abriu a porta.
— Ainda não sei.
E foi embora antes que ela pudesse decidir se aquilo era uma resposta ou um problema. Às onze, a praça estava cheia e a Bella Vita tinha uma fila de oito pessoas. Mel trabalhou sem parar até o começo da tarde. Mesmo assim, de tempos em tempos, seus olhos iam para a porta. Theo não voltou. Era ridículo sentir alívio e decepção pela mesma coisa.
Quando o movimento diminuiu, Bia apareceu usando shorts de mergulho e uma camiseta da escola de turismo dos pais. Colocou os braços sobre o balcão e analisou Mel por cinco segundos.
— Ele voltou.
— Você fala como se tivesse visto um cometa.
— Em Santa Marina, novidade dura pouco. Minha mãe soube antes de mim, o que eu considero uma falha grave do sistema de fofoca local.
Mel entregou a ela um copo de água.
— Não é novidade.
— Theo voltar depois de um ano e meio é exatamente a definição de novidade.
— Ele veio ajudar o avô.
— E fazer um documentário, eu sei.
Mel estreitou os olhos.
— Você conversou com ele?
— Não. Seu Ovídio conversou com meu pai. Meu pai conversou com minha mãe. Minha mãe conversou comigo. A cadeia alimentar da informação.
Mel tentou não rir. Bia apontou para o caderno azul.
— Você contou?
— Léa contou.
— E?
— Ele disse parabéns.
— Só?
— O que você queria? Que ele se jogasse no chão e implorasse para eu não ir?
Bia pensou.
— Seria constrangedor, mas renderia assunto.
Mel jogou um guardanapo nela. Depois, quando ficou sozinha outra vez, abriu o caderno.
72 dias. Abaixo do número, sem pensar muito, escreveu: Theo voltou. Ficou encarando as duas palavras até perceber que aquilo parecia importante demais.
Ela riscou as duas palavras. A tinta continuou visível sob a linha. E, pela primeira vez em muito tempo, Mel teve a sensação de que setenta e dois dias talvez não fossem suficientes.
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