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A história de amor que eu não sabia que estava vivendo

1 de set.
4 min de leitura

ENTRE ENCONTROS E DESENCONTROS · Uma história real em cinco episódios · EPISÓDIO 1

Três dias. Foi esse o tempo que precisei para conhecer alguém que, anos depois, meu coração ainda reconheceria.
Nós nos conhecemos durante uma oficina estadual de teatro, em uma competição escolar. Havia muitas pessoas, equipes, vozes e movimentos ao redor. Ainda assim, uma presença conseguiu se destacar de um modo que eu não saberia explicar naquele momento. Não foi uma apresentação grandiosa nem uma certeza imediata. Foi apenas a sensação de que algo havia mudado dentro de mim antes mesmo de eu entender o que estava acontecendo.

Quando ele encostou a mão em mim, senti um arrepio e uma conexão muito profunda. Aquele gesto simples não parecia simples. Era como se o corpo tivesse compreendido antes da razão que existia ali alguma coisa diferente. Eu não tinha um nome para aquilo. Também não sabia se ele havia sentido o mesmo. Só sabia que, a partir dali, passei a perceber sua presença em meio a tudo o que acontecia.

Três dias no mesmo lugar


Durante os três dias da competição, ficamos no mesmo prédio de dormitórios. Nós nos olhávamos e queríamos nos aproximar, mas não sabíamos como. A distância entre nós podia ser de poucos passos e, ainda assim, parecia difícil atravessá-la. Havia uma espécie de cuidado, talvez timidez, talvez medo de interpretar errado aquilo que o outro sentia. Hoje, quando volto a essa lembrança, percebo como certos encontros começam muito antes da primeira conversa.

Eu tinha a impressão de que ele sentia o mesmo. Não porque tivéssemos falado sobre isso, mas porque alguns silêncios parecem carregar respostas. Um olhar que demora um pouco mais, a consciência constante de onde o outro está, a vontade de dizer alguma coisa e a incapacidade de encontrar as palavras certas. Era como reconhecer uma emoção no outro enquanto eu ainda tentava compreender a minha.

No fim do segundo dia, finalmente conversamos. A aproximação aconteceu com uma naturalidade que me surpreendeu. Em pouco tempo, parecíamos duas pessoas que já se conheciam havia muito mais do que algumas horas. Não porque soubéssemos tudo um sobre o outro, mas porque a conversa não precisava vencer uma estranheza inicial. A sensação de proximidade já estava ali, esperando que tivéssemos coragem de alcançá-la.

O terceiro dia


No terceiro dia, aconteceu um beijo. Não havia, porém, tempo suficiente para descobrir com calma o que aquela história poderia se tornar. A competição terminaria, as equipes voltariam para suas cidades e a realidade logo retomaria o lugar que, por alguns dias, havia sido ocupado por uma possibilidade. Às vezes a vida nos apresenta uma pessoa no exato instante em que também prepara a despedida.

Ele voltou com sua equipe para uma cidade a mais de dois mil quilômetros da minha. A distância transformou aquilo que parecia tão próximo em algo difícil de imaginar na vida cotidiana. Mesmo assim, trocamos contatos e continuamos conversando. Era uma forma de preservar o vínculo e, ao mesmo tempo, tentar entender o que aqueles três dias tinham deixado em nós.

Quando a realidade também faz parte do amor


Não havia apenas quilômetros entre nós. Existiam responsabilidades que nenhum dos dois podia fingir que não estavam ali. Ele não queria deixar a mãe sozinha. Eu não iria embora porque meus pais eram idosos e precisavam de cuidado. Não era falta de sentimento. Era a vida real pedindo decisões que não podiam ser tomadas apenas com o coração.

Nenhum de nós estava errado. Éramos duas pessoas tentando respeitar as próprias famílias, ainda que isso significasse não viver aquilo que talvez desejássemos. Essa compreensão não tornou a distância mais fácil, mas impediu que transformássemos o cuidado com quem amávamos em culpa. Algumas escolhas doem justamente porque nascem de valores que também são importantes.

Decidimos permanecer amigos. A vida seguiu, como sempre segue, conduzindo cada um por caminhos diferentes. Por algum tempo, aquela história pareceu pertencer apenas a uma lembrança breve: três dias, uma conversa, um beijo e uma despedida. Mas certas lembranças não permanecem porque nos recusamos a avançar. Permanecem porque revelaram algo verdadeiro, mesmo quando ainda não havia condições para que aquilo se transformasse em uma vida compartilhada.

O que eu ainda não sabia


Naquele momento, eu não sabia que algumas histórias não terminam quando duas pessoas se despedem. Também não imaginava que o tempo poderia mudar tantas coisas sem apagar a sensação daquele primeiro encontro. Eu só sabia que havia conhecido alguém que me parecia familiar de uma maneira impossível de justificar. E que, mesmo seguindo adiante, alguma parte de mim continuaria guardando aqueles três dias.

Talvez essa experiência tenha influenciado a forma como hoje observo os encontros nas histórias que escrevo. Não acredito que o amor seja capaz de resolver tudo sozinho, nem gosto de personagens perfeitos. Acredito, porém, que existem conexões que nos transformam, mesmo quando a realidade obriga duas pessoas a esperar, escolher ou se afastar. O valor de um encontro não depende apenas de sua duração. Às vezes, poucos dias são suficientes para deixar uma pergunta que o tempo ainda precisará responder.

Guardar aquela lembrança não significava compreender seu futuro. Eu não sabia se um reencontro aconteceria nem podia organizar minha vida em torno dessa possibilidade. O que ficou foi a consciência de que, por um breve intervalo, duas pessoas haviam se percebido com uma intensidade incomum. O sentido completo daquele encontro só apareceria muito depois.
Algumas histórias não terminam na despedida. Elas apenas esperam, em silêncio, o tempo necessário para revelar o que realmente eram.


— Ana Tetzlaff

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Ana Tetzlaff
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