Por que eu escrevo
DOMINGOS DE ANA · Reflexões e fragmentos da vida de uma autora · EDIÇÃO ESPECIAL
Escrevo porque acredito que uma história pode abrir uma janela exatamente quando alguém precisa respirar.
Eu sou apaixonada por romances, culturas e histórias capazes de fazer o leitor viajar sem sair de casa. Mas essa resposta, embora verdadeira, ainda não diz tudo. Escrever não é apenas escolher personagens e acontecimentos. É tentar transformar emoções em uma experiência que outra pessoa possa reconhecer, mesmo que viva em outro lugar, fale outro idioma ou tenha uma história completamente diferente da minha.
Quando começo a imaginar uma narrativa, não a vejo como uma sequência fria de fatos. As cenas aparecem como um filme. Eu entro nelas, acompanho os gestos, escuto os silêncios e sinto as emoções dos personagens. Durante aquele tempo, a história deixa de ser apenas uma ideia e se torna um lugar onde também estou vivendo. Talvez seja por isso que escrever pode ser tão intenso e, ao mesmo tempo, tão necessário.
Histórias como lugares de passagem
Nem sempre podemos conhecer todos os lugares que desejamos. A literatura, porém, cria outra forma de atravessar fronteiras. Um livro pode levar alguém a uma rua distante, apresentar uma cultura, despertar curiosidade por um idioma ou fazer com que uma paisagem imaginada permaneça na memória como se tivesse sido visitada. Eu escrevo porque gosto dessa possibilidade de viagem.
Para mim, os lugares não são apenas cenários bonitos. Ruas, arquitetura, costumes, linguagem, relações familiares e formas de demonstrar afeto influenciam a maneira como uma história acontece. Quando pesquiso um ambiente, procuro compreender como ele participa da vida dos personagens. Quero que o leitor não apenas enxergue um destino, mas perceba que aquela cultura também molda decisões e emoções.
Essa é uma das razões pelas quais me interessam tanto os romances interculturais. Quando duas pessoas trazem mundos diferentes para uma relação, o amor precisa aprender a escutar. Há coisas que não cabem numa tradução literal: valores familiares, silêncios, expectativas e gestos cujo significado muda de uma cultura para outra. Escrever sobre isso é escrever sobre aproximação.
Uma pausa no meio de dias intensos
Também escrevo pensando em quem chega ao fim de um dia difícil e precisa encontrar algum alívio. Nem todo leitor abre um romance apenas para descobrir o que acontecerá. Às vezes ele procura alguns minutos de silêncio, uma emoção que não lhe cobre nada, um lugar onde possa descansar da própria rotina e recuperar um pouco da esperança.
Eu gostaria que minhas histórias oferecessem isso: relaxamento sem vazio, emoção sem crueldade gratuita e esperança sem negar a complexidade da vida. Não quero fingir que pessoas e relações são perfeitas. Quero mostrar personagens que enfrentam dificuldades reais e ainda encontram razões para continuar, escolher e se transformar.
Se uma leitora fecha um livro se sentindo um pouco mais leve, se consegue respirar melhor ou reencontrar forças para o dia seguinte, a história já criou uma conexão. A literatura não resolve todos os problemas que estão do lado de fora da página. Mas pode nos lembrar de que ainda somos capazes de sentir curiosidade, afeto e possibilidade.
Escrever para atravessar fronteiras
A arte conecta pessoas porque não exige que duas vidas sejam iguais para que uma emoção seja compreendida. Uma história brasileira pode encontrar uma leitora em outro país. Um personagem criado em determinado contexto pode fazer alguém muito distante reconhecer uma saudade, um medo ou uma esperança. É nesse encontro que as histórias atravessam fronteiras de verdade.
Por isso, o desejo de alcançar leitores em outros idiomas não nasce apenas de uma ideia de expansão. Nasce da vontade de compartilhar. Uma tradução bem cuidada permite que a mesma emoção encontre outra música, outra estrutura e outra forma de respirar. O texto muda de idioma, mas precisa preservar aquilo que o fez nascer.
Eu escrevo para transformar imaginação em histórias e convidar leitores a lugares que talvez nunca tenham imaginado conhecer. Escrevo porque romances podem aproximar pessoas, culturas e experiências. Escrevo porque ainda acredito no poder de uma página para interromper o ruído e devolver a alguém a vontade de sonhar.
Eu não escrevo apenas histórias. Levo você a lugares que nunca imaginou alcançar.






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